ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 564 - 17/11/2009
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A ´guerra de mídia` e as opiniões formadas
Postado por Luiz Weis em 12/1/2009 às 4:34:02 PM
 
 

A (im)parcialidade do noticiário da ofensiva de Israel em Gaza tem sido nesses dias o inevitável assunto dos ombudsmans da imprensa em muitos países. O “editor público” do New York Times, Clark Hoyt, por exemplo, dedicou a isso a sua coluna do domingo, 12.

Mais uma vez, escreve, o jornal foi apanhado num fogo cruzado familiar, recebendo de todos os lados acusações de fazer uma cobertura facciosa e errônea.

Nessas situações, os órgãos de mídia atacados costumam dar-se por satisfeitos: se todos, a começar dos antagonistas, se queixam, é o argumento, é sinal de que devemos estar fazendo a coisa certa.

Não necessariamente, rebate Hoyt. Mas neste caso, é bem possível. “Diante do complexo e intratável conflito entre Israel e os palestinos”, resigna-se, “mesmo o melhor e mais equilibrado noticiário deixará de satisfazer aos que se alinham apaixonadamente com uma ou outra parte”.

A intensidade das críticas não surpreende. Hoyt cita o diretor da faculdade de jornalismo da Universidade Columbia, Nicholas Lemann. “Não é só uma guerra”, ele comenta. “É uma guerra de mídia. Fora da região do conflito, as opiniões são talhadas pela cobertura da imprensa.”

É também a visão do jornalista Phillip Knightley, autor do clássico sobre guerra e jornalismo que remete à frase famosa de um senador americano, em 1918, para quem “a primeira vítima da guerra é a verdade”.

Numa entrevista à Folha, também no domingo, perguntado sobre a eficiência da máquina de propaganda israelense, Knightley responde: “É claro que funciona. A repetição, de modo profissional e sem recuo, acaba por fixar a idéia [de que toda nação tem o direito de se defender e é isso que Israel está fazendo]. E as pessoas acabam por acreditar, como se se tratasse apenas disso.”

Hoyt e Lemann - assim como incontáveis outros observadores – estão certos de que as pessoas tomam partido em relação aos acontecimentos em Gaza a partir dos relatos da mídia, que podem ser influenciados pela propaganda ou simplesmente dar vazão a ela.

É isso? Ou será que o público, em quase toda parte, apenas tira do noticiário elementos que sirvam para confirmar opiniões já formadas sobre o conflito israelense-palestino? Opiniões amplamente favoráveis a Israel, no caso dos Estados Unidos. Ou amplamente desfavoráveis, na Europa e em outras paragens.

Em regra, percepções e juízos de valor estão consolidados. Seria de surpreender se não estivessem, passados – para não ir mais longe – 40 anos da irrupção que definiu a topografia do horror no Oriente Médio, a Guerra dos Seis Dias, de 1967.

O ponto de inflexão foi mais recente, no entanto. As simpatias internacionais que Israel tinha acumulado na condição de vítima de abomináveis atos terroristas – como os dos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, sequestros de aviões e atentados suicidas contra civis em seu território – foram dramaticamente abaladas pela cobertura da repressão sem precedentes à população civil palestina nos territórios ocupados, durante a segunda intifada (levante), que estalou em setembro de 2000, a partir de uma provocação do então lider oposicionista Ariel Sharon (com sua “visita” a um local sagrado para os muçulmanos em Jerusalém).

A imagem que se fixou inicialmente foi a da morte, a tiros, de um garoto palestino de 12 anos, Muhammad Durrah. Ela acabaria “superada” pelas cenas do brutal assalto militar israelense à Cisjordânia, com o bombardeio e o cerco da sede da Autoridade Palestina, então presidida por Yasser Arafat, em Ramallah, os massacres em Jenin e no campo de refugiados de Rafah, em Gaza.

Ao todo, Israel matou 4.789 palestinos, entre eles 982 menores. Palestinos mataram 1.053 israelenses entre militares e civis, incluíndo as 219 vítimas de 12 atentados terroristas entre junho de 2001 e agosto de 2004.

Apesar dos atentados, a superioridade moral alegada por Israel se evaporou. Nunca antes se viram tantas e tão numerosas manifestações de protesto contra as ações israelenses em países não islâmicos.

As reações mundiais às atrocidades em Gaza apenas ecoam a condenação internacional a Israel naqueles anos. Não é de acreditar que o noticiário destas duas últimas semanas tenha convertido críticos em defensores de Israel. Se algo mudou – e a mudança deve ter sido estatisticamente negligível – foi o contrário.

O que, evidentemente, não desobriga a imprensa de contar a verdade que conseguir apurar sobre os ataques israelenses e os padecimentos dos palestinos, seja qual for o seu efeito sobre a formação das opiniões. O mais famoso correspondente estrangeiro no Oriente Médio, o inglês Robert Fisk, do Independent, disse dias atrás, em um debate, que “os jornalistas devem ficar do lado dos que sofrem”. A melhor maneira de fazer isso é relatar objetivamente o seu sofrimento – com a profusão possível de detalhes.

Por que se copiam certos textos

Resposta pública a um leitor amigo que estranha a transcrição, neste blog de observação da imprensa, de textos que nem sempre tratam de questões da mídia.

Os mais recentes exemplos são os artigos “Do Gueto de Varsóvia ao Gueto de Gaza”, da jornalista Maria Inês Nassif, e “O que você não sabe sobre Gaza”, do professor Rachid Khalidi, da Universidade Columbia, ambos publicados na quinta-feira, 8, o primeiro no Valor, o segundo no New York Times.

A intenção é compartilhar ideias, informações e narrativas – que por alguma razão sensibilizaram fortemente o blogueiro – sobre acontecimentos que concentram as atenções, como a ofensiva israelense em território palestino.

Muitas vezes, a iniciativa de transcrevê-los vem ainda do fato de terem sido originalmente divulgados em órgãos de comunicação que decerto apenas uma minoria dos presumíveis leitores do Verbo Solto costuma procurar. Ou porque, para ficar nos exemplos referidos, se trata de um jornal especializado, de circulação relativamente limitada, ou porque se trata de um jornal em idioma estrangeiro.

Poderia argumentar, sem faltar com a verdade, que as transcrições são uma forma de destacar pontos altos no tratamento da mídia a assuntos atuais de grande impacto, por seu potencial de enriquecer a percepção do leitor a respeito deles – uma forma, em suma, de observar a imprensa.

Mas seria uma racionalização: o que se quer, essencialmente, é que o maior número possível de pessoas tenha acesso a manifestações sobre temas quentes na ordem do dia, as quais, por sua qualidade e pertinência, o blogueiro não hesitaria em subscrever.

Não precisa ser um artigo ou uma reportagem inteira. Às vezes, meia dúzia de palavras praticamente pedem para ser repetidas, tamanha a sua capacidade de iluminar implacavelmente as questões de que tratam.

E, nesse departamento, a palma vai para a colunista Eliane Cantanhêde, da Folha de S.Paulo. “Israel”, escreveu ela no domingo, 11, “permite a suspeita de que não apenas combate um inimigo, mas perdeu o controle do próprio ódio”.

Comentários (15)
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Marcos Schérr  Schérr, Advogado (Valença/BA)
Enviado em 16/1/2009 às 11:08:33 PM

Me sinto decepcionado quando leio declarações de militares brasileiros dizendo que Israel tem o direito de se defender. Se defender de que? Eles são os invasores e os ladrões das terras palestinas. Se essa praga que é Isrel estivesse em terras brasileiras, lhe garanto caro Wagner, que o Brasil já não teria nenhum metro de terra, pois, todo o território brasileiro seria tomado por essa "aberração moral e política" que é isarel e, tudo isso, por conta da covardia de alguns brasileiros e, diga-se de passagem, de alguns militares que seriam os primeiros a correr para procurar abrigo em países vizinhos. Salve o Hamas. Viva a Palestina.
Alexandre  Lobianco, professor (rio de janeiro/RJ)
Enviado em 16/1/2009 às 10:36:29 PM

Fico pasmo como o Senhor Tarso Genro, que não entende nada de leis, possa tomar uma atitude descabida dessas. Dar asilo a terroristas é o mesmo que compactuar com o(s) crime(s) imputado(s) a este senhor e não tem nada a ver com soberania nacional. Porque abrir precedentes desse tipo podem gerar conflitos diplomáticos para o Brasil, além de colocar em cheque a confiabilidade do nosso país em assuntos nos quais se façam necessária a utilização da nossa diplomacia que é respeitada em âmbito mundial em qualquer país, pois nossos diplomatas são altamente qualificados e competentes naquilo que fazem. Antes d etomar atitudes impensadas deviam ser consultadas pessoas que pudessem investigar a procedência desse senhor e também a justiça italiana deveria ser consultada para que se evitasse esse tipo de ato sem fundamentos por parte do Senhor Tarso Genro.
Wendel Anastácio  Anastácio, Vendedor (Barbacena/MG)
Enviado em 15/1/2009 às 11:05:24 PM

Shalon; Ao comentar sobre o "direito de Israel se defender", fica a pergunta! Defender-se invadindo um território, de maltrapilhos , com aviões equipados com bombas, foguetes teleguiados, tanques, armas proibidas pelo Protocolo de Genebra, como fósforo branco? "guerra, combate", contra crianças com pedras nas mãos? Por favor Sr. militar , do RN, me poupe. Como militar, deveria muito bem saber que é obrigação de qualquer cidadão, defender a sua Pátria (terra), com a própria vida, se preciso for. Pelo visto, já se esqueceu de seu juramento. Lendo seu comentário, fico com sérias dúvidas sobre nossa segurança e defesa. Perdeu-se uma ótima oportunidade de ficar calado! Qto a defender sua terra (deles), os palestinos teem todo o direito e dever de fazê-lo, e é o que estão fazendo. Inclusive com a própria vida, o que dúvido que muitos fariam, caso o Brasil, nossa Pátria, estivesse sendo invadida, como vários Países no Oriente Médio. Vide Afeganistão, Iraque, e para nossa vergonha, a Faixa de Gaza. Pense nisto.
Jaqueline  Oliveira Araujo, Professora (Diadema/SP)
Enviado em 15/1/2009 às 6:47:07 PM

Lastimável sempre é saber que existem mentecaptos, ainda crendo que tem poder verdadeiramente, tolos não sabem acaso que este lhes foi outorgado momentaneamente, que em breve força superior a mesquinhez humana sobrevirá e resgatará com juros o que lhe foi confiado!!! Faz-se urgente ´Administrar as diferenças´ como pontua sabiamente Benjamin Abdala Júnior respeitando todos os humanos seres. Entender e aceitar o outro com seu ´mau hálito´ diário pois que somos todos uma só carne e um só espírito, uma só raça. A raça humana!!! Acaso esqueceram do que sucedeu com o continente Atlântida, ou nunca leram ´O Dilúvio´. digam sinceramente senhores Mentecaptos do caos mundial, já refletiram sobre a imensa quantidade de calor que estão deliberadamente lançando na atmosfera!!! Assassinam agora e premeditam outras tantas mortes pra depois!!! Se houver depois...
Wellington  Trotta, Professor (RJ/RJ)
Enviado em 15/1/2009 às 5:09:47 PM

O problema palestino é uma hiprocrisia gigantesca, tanto dos árabes como dos israelenses, que vêem a população palestina como um joguete político-militar. Ambos são movidos pela desgraça dessa população indefesa. Não posso dizer não a existência do Estado de Israel, mas não posso dizer sim a política expansionista dos sionistas de Israel.
Antonio Carlos  Silva, Funcionário Público (Rio de aneiro/RJ)
Enviado em 15/1/2009 às 2:07:08 PM

Ô Sr.Wagner, voce sabe que os palestinos estão atacando no limite territorial imposto pelo genocída regime sionísta as área que foram roubadas pelo latrocída exército israelense ao longos de décadas ?, ou seja, os caseiros quassan atingem áreas palestinas que os sionístas roubaram ? . Voce como militar aceitaria que parte de nosso território fosse usurpado por forças estrangeiras e que os brasileiros se acrovadasem e se deixassem serem chacinados por fome, sede, balas e bombas sem nenhuma reação ? . Saudações,
Wagner  do Amaral Sales, Militar (natal/RN)
Enviado em 15/1/2009 às 10:52:37 AM

Não se pode ficar feliz com a morte de inocentes. Porém acho sim que israel tem direito de se defender. Todos os países têm. A discussão na verdade se tornou ideológica e portanto ilógica.
César  Dorneles, Professor (Porto Alegre/RS)
Enviado em 15/1/2009 às 9:37:22 AM

Fico me perguntando quantas crianças ainda irão morrer para que se ´garanta´ a vitória nas próximas eleições da coalização que está no poder.
Ibsen  Marques, Técnico em Eletrônica (Caçapava/SP)
Enviado em 14/1/2009 às 5:46:55 PM

Roberto, acho que um bem realizado não justifica o mal que se pratica. Acho que a Eliane Catanhêde foi felicíssima em sua redução. Outra coisa: não devemos colocar no mesmo saco todos os árabes. Agora, sobre o Sudão, você tem toda razão, a cobertura é pífia e o genocídio acaba por tomar mais força na penumbra da desinformação. O que está me parecendo é que a cobertura à invasão israelense toma essa proporção mais pela forma como agride a economia mundial do que pelo genocídio que vem sendo praticado. Se isso não fosse verdade outras batalhas mais sangrentas que essa teriam a mesma ou maior notoriedade.
Poliana  Alves, estudante de jornalismp (Belo Horizonte/MG)
Enviado em 14/1/2009 às 2:13:30 AM

É lastimável termos que acompanhar nos jornais as notícias desse massacre israelense na faixa de Gaza. E o que me deixa mais triste é saber que as autoridades competentes não parecem se comover com a morte de milhares de inocentes todos os dias, e saber que essa suposta defesa israelense é na verdade um ato covarde motivado por motivos políticos. E no meio disso tudo a imprensa mais uma vez se posiciona , infelizmente,muito mais favorável ao lado do mais forte, o lado israelense.
Cláudio  de Souza, Jornalista (SP/SP)
Enviado em 13/1/2009 às 11:20:47 PM

Gostaria de chamar a atenção para a excelente cobertura que a CNN está fazendo desse conflito, mostrando os dois lados, mas com o devido peso maior para a exibição do maior sofrimento, no caso, o dos palestinos. Percebe-se nos olhos dos jornalistas o quanto eles estão chocados e desaprovam a ação israelense, e também o veto à entrada da imprensa em Gaza -- mas mesmo assim eles buscam o máximo de imparcialidade. E olhe que eles estão em território de Israel...
Marco  Vitis, Professor (São Paulo/SP)
Enviado em 13/1/2009 às 10:31:28 PM

Um comandante militar judeu declarou que gostaria de aplicar em Gaza a mesma receita usada pelos EUA em Hiroshima. Este é um dirigente do Estado de Israel alinhado politicamente com aquele judeu fundamentalista que assassinou Rabin, pelas costas, num evento pela Paz. Os judeus que se preparem para o desprezo universal do qual serão objeto.
Hélio  Amaral, Músico (São Paulo/SP)
Enviado em 13/1/2009 às 9:18:54 PM

Weis, estou impressionado com o noticiário absolutamente parcial do Jornal da Record. Não vou dizer pra que lado, quem assistir perceberá logo, pois só vemos depoimentos e reportagens de um lado só. Confesso que nunca vi algo igual.
Carlos Henrique  Cardoso, Engenheiro (Juiz de Fora/MG)
Enviado em 13/1/2009 às 5:28:15 PM

Se uma pessoa que pilota um caça F116 ou um moderno tanque cheio de bombas e sabendo que a um aperto do gatilho ele matará, com 100% de probabilidade, crianças e inocentes, e mesmo assim ele o faz, então só poderá ser chamado de assassino, não tem outro nome. E não me venha com esta estória de que guerra é guerra porque esta não é uma.
ROBERTO DE CARVALHO  carvalho, jornalista (rio de janeiro/RJ)
Enviado em 13/1/2009 às 3:04:05 PM

O mundo se revolta com Israel que se defende dos sistemáticos ataques ao seu território. Mas vale a pena resasaltar que neste exato momento os árabes estão causando um vaticínio em Darfur no Sudão. E Israel, acolhe em seu território os refugiados deste país africano, que outrora foi o berço de inúmeros faraós do antigo Egito (Kemet). http://palavrasinistra.blogspot.com/2006/09/voltem-seus-olhos-para-darfur.html
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Luiz Weis
Jornalista, pós-graduado em Ciências Sociais 
pela USP, onde lecionou Sociologia da Comunicação. Escreve no Observatório da Imprensa e no jornal "O Estado de S.Paulo". Entre outras atividades, foi redator-chefe das revistas "Superinteressante" e "IstoÉ", editor-assistente da "Veja", editor político e apresentador do programa "Perspectiva" da TV Cultura, editor nacional da "Visão" e editor de assuntos especiais da "Realidade". É autor, com Maria Hermínia Tavares de Almeida, de "Carro-zero e pau-de-arara: o cotidiano da oposição de classe média ao regime militar, in "História da Vida Privada no Brasil", Lilia Moritz Schwarcz (org.), 1998, e do perfil político de Vladimir Herzog (sem título), in "Vlado — Retrato da morte de um homem e de uma época, Paulo Markun (org.), 1985. Recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo Científico, em 1990.


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